8 Perguntas Que Você Precisa Saber Responder Antes de Sair Por aí Falando Da PEC Dos Gastos
Há exatos
dois anos, vitoriosa na eleição mais disputada no país desde a
redemocratização, a ex-presidente Dilma Rousseff recebeu de Lula apenas um conselho sobre
o que fazer com a economia em seu segundo mandato: colocar Henrique
Meirelles no Ministério da Fazenda. Parecia o plano perfeito. Meirelles
tinha crédito de sobra junto ao mercado e confiança junto à base
política.
Dilma, no
entanto, fez jogo duro. E ao recusar garantir autonomia à pasta, acabou
colaborando para que seu capital político entrasse em parafuso poucos
meses depois: fez Meirelles desistir da ideia.
Em ao
menos três ocasiões, Lula tentou, sem sucesso, convencer sua sucessora a
indicar Meirelles ao cargo. Na última delas, em março deste ano, o
ex-presidente já estava convencido de que o ex-deputado federal faria
parte do governo no instante seguinte à sua nomeação como ministro-chefe
da Casa Civil. Um novo tempo surgiria e o ajuste fiscal tomaria seu
rumo, com Lula no comando.
Ainda
seriam necessários dois meses, porém, para o destino terminar de colocar
o ex-presidente do Banco Central no cargo mais alto da economia do
país, já no governo interino de Michel Temer. E quase dois anos desde a
conversa entre Lula e Dilma para que Meirelles garantisse sua primeira
vitória como ministro: aprovar a PEC dos gastos.
Tamanha
confiança detida por Lula de que Meirelles era a pessoa certa para o
cargo não nasceu do nada. Em seus oito anos no comando do Banco Central,
quando topou sair do PSDB para
ocupar uma das posições mais importantes do governo Lula, Meirelles foi
um dos nomes responsáveis pela bem sucedida política que permitiu ao
país reduzir a taxa de juros de 26,5% em fevereiro de 2003 para 10,75% em dezembro de 2010.
Agora, à
frente da área fiscal, Meirelles tem como objetivo três tarefas nada
fáceis: impedir que a dívida continue crescendo, reverter o maior
déficit orçamentário do país nos últimos 19 anos e fazer a economia sair
da maior recessão dos últimos 85 anos. Tudo isso, claro, nos escassos dois anos que possui de mandato. É um desafio e tanto.
Em outros
tempos, a estratégia poderia ser simples – numa única canetada,
aumenta-se os impostos e joga-se a conta para a população. Quase duas
décadas de aumento de carga tributária e a certeza de que aumentar
impostos em meio a uma recessão apenas contribui para nos jogar mais
ainda no fundo do poço, no entanto, fizeram Meirelles apostar num novo
plano.
Se você já está se coçando para gritar por corte de gastos, talvez seja interessante pegar uma calculadora e analisar um pouco mais a fundo o problema.
Para
impedir que a dívida cresça e leve os juros para cima (o que reduziria
ainda mais a capacidade de investimento das empresas, reduzindo a
geração de emprego e renda), o Brasil necessita voltar a economizar ao
menos 2% do PIB, uma bagatela de R$ 120 bilhões. Some a isso o que
gastamos a mais do que arrecadamos hoje (R$ 170,5 bilhões) e o resultado
é uma conta que chega a quase R$ 300 bilhões.
Encontrar isso no orçamento, hoje, é impossível. Nem mesmo se o governo demitisse 100% dos funcionários públicos.
Se
aumentar impostos não é uma boa ideia e apenas cortar gastos não resolve
o problema, qual seria então a solução? Para Meirelles, uma palavrinha
curta e simples: crescimento.
Que tal se não aumentássemos impostos e nem realizássemos cortes em investimentos e programas sociais (como os 74% de verba para
programas como o Minha Casa Minha Vida, cortados ainda no governo
Dilma) e em troca passássemos os próximos 10 ou 20 anos gastando menos?
Pois é exatamente disso que o governo quer lhe convencer.
1) De onde surgiu esse papo de congelar os gastos?
Sem topar
ceder o comando da economia a Meirelles, Dilma peregrinou o mercado em
busca de um nome que atendesse suas principais demandas: dividir com ela
o comando da economia e ter bom trânsito com o sistema financeiro. Seu
primeiro nome, Luís Carlos Trabuco, presidente do Bradesco, não topou,
mas enviou um de seus melhores executivos para a tarefa: Joaquim Levy.
Muito
antes de se tornar presidente de uma das empresas do Bradesco, Levy
marcou presença no bem sucedido ajuste fiscal do primeiro mandato do
governo Lula. Assim como boa parte da equipe indicada por Lula para a
Fazenda em 2003, Levy não possuía nenhuma proximidade com as ideias
petistas. Para economistas ligados ao PT, como Maria da Conceição
Tavares, a equipe montada por Lula era composta de débeis mentais.
Com um
currículo que lhe garantia experiência e certa credibilidade, Levy
montou seu ajuste fiscal baseado em duas frentes: aumento de impostos e
corte de gastos. Com a recusa do Congresso em aumentar impostos, porém,
seu ajuste ficou capenga e os cortes, como vimos, se limitaram a reduzir
investimento e programas sociais.
Tamanha tragédia foi um recado claro para o próximo ministro da Fazenda a se aventurar no cargo.
Assim que
assumiu o posto, pouco mais de 4 meses depois de Levy ter desistido da
tarefa, Meirelles apresentou suas cartas, ameaçou um aumento de impostos
e fez o Congresso topar uma estratégia de longo prazo.
2) Como essa PEC resolveria o nosso problema na prática?
Pouco mais
de cinco anos de políticas voltadas para incentivar o setor produtivo
deixaram sua conta. Entre 2010 e 2015, o governo federal foi responsável
por despejar mais de R$ 450 bilhões em aportes para que bancos públicos realizassem empréstimos com juros menores do que a inflação para grandes e médias empresas. Na outra ponta, R$ 458 bilhões deixaram
de ser arrecadados com as chamadas desonerações fiscais. Em outras
palavras: o governo topou aumentar os gastos e diminuir a receita, na
expectativa de que o crescimento da economia fizesse a conta fechar.
No final
desta brincadeira, a dívida pública cresceu inacreditáveis R$ 2
trilhões, mais do que dobrando. Apenas entre 2013 e o início de 2016, a
dívida saltou pouco mais de 15 pontos do PIB, ou aproximadamente R$ 1
trilhão. Impedir que isso continue é um dos objetivos da PEC.
Para
fechar a conta é necessário cortar gastos, mas uma regra do nosso
orçamento torna essa tarefa quase impossível: quase R$ 2 em cada R$ 3
gastos pelo governo não podem ser mudados,
pois obedecem a limites mínimos estabelecidos na Constituição ou leis
que impedem que sejam reajustados abaixo, por exemplo, da inflação.
Para
fugir dessa regra, a PEC propõe que os valores sejam preservados como
estão hoje (ou sofram algum aumento no início e então sejam congelados,
como os gastos em saúde e educação). Em outras palavras, a ideia é que
nós possamos trocar os cortes de gastos que precisaríamos por um
congelamento e usar a arrecadação extra para cobrir a diferença.
3) O congelamento de gastos também atingirá o salário dos políticos e do Judiciário?
16,4% do orçamento brasileiro é gasto com os 45% mais pobres.
83,6% do orçamento brasileiro é gasto com os 55% mais ricos.
83,6% do orçamento brasileiro é gasto com os 55% mais ricos.
Sim, você
não leu errado. Pegue todo o gasto em saúde e educação destinado à
metade mais pobre da população, some com os gastos do Bolsa Família e,
no final, o número que você chegará é exatamente este: 16,4%. A conta é
do economista Marcos Lisboa e você pode conferir aqui.
Poucos
temas são tão delicados quando falamos em congelar gastos quanto as
áreas de proteção social. Para boa parte das pessoas, o governo existe
essencialmente para proteger a camada mais pobre da população e é para
ela que se destinam os programas sociais e os gastos com saúde e
educação.
Na prática, porém, o orçamento público serve hoje a outros interesses. Como demonstra o
economista Paes de Barros, nossa previdência privilegia a camada de
cima. Se aposentar antes dos 65 anos é um luxo ao qual metade dos
trabalhadores brasileiros não possui acesso, uma vez que, estando na
informalidade, não conseguem aposentar-se por tempo de contribuição e
muito menos receber mais do que um mísero salário mínimo.
Some os
gastos com saúde e educação para os mais pobres, e o número que você
encontrará não cobre sequer o gasto do governo com o funcionalismo
público. Como mostrou uma pesquisa do IPEA, quase 1/3 da desigualdade do país tem origem nos salários e aposentadorias dos funcionários públicos. Não é por acaso.
Em outro estudo,
o IPEA, que é um órgão público, revela que nos últimos 15 anos, o
salário dos funcionários públicos cresceu nada menos do que 3 vezes
acima do salário médio de trabalhadores da iniciativa privada.
Some
desonerações para grandes empresários, subsídio para grandes fazendeiros
e aquela mãozinha extra ao exportador e você descobrirá onde foi parar
boa parte dos 83,6% restantes do orçamento: para os mais ricos.
E não pense que o Congresso e o Judiciário mais caros do planeta também não entram na conta.
Todos eles, com a aprovação da PEC, passam a fazer parte do congelamento. Este é também o motivo pelo qual Ministério Público é contra a PEC. Para o MP, o governo pode congelar apenas os gastos do Executivo, não do Judiciário.
Todos eles, com a aprovação da PEC, passam a fazer parte do congelamento. Este é também o motivo pelo qual Ministério Público é contra a PEC. Para o MP, o governo pode congelar apenas os gastos do Executivo, não do Judiciário.
Pelo novo
regime fiscal, a concessão de aumentos acima da inflação não poderia ser
aprovada sem que violasse a lei, uma vez que não é permitido um aumento
de gastos totais acima da inflação. Para que os políticos ou o
Judiciário aprovassem um aumento para si, teriam de diminuir recursos de
outras áreas, tornando muito mais difícil aprovar aumentos.
Em outra palavras – com a aprovação da PEC, o dinheiro deixa de ser infinito.
E aqui, é importante ressaltar por que
essa é uma PEC. A revisão anual do salário do funcionalismo é exigência
da Constituição. Se fosse lei, não funcionaria.
4) O governo irá investir menos em saúde e educação?
Apesar de
responderem por menos de R$ 1 em cada R$ 5 gastos pelo governo, os
gastos em educação e saúde tomaram conta da pauta. Motivo pra isso não
falta. Ambos são a parte mais visível dos serviços entregues à população
pelo setor público e, para muitos, a mais importante função de qualquer
governo.
Ainda
assim, as coisas por aqui não são tão simples como parecem. Há exceções
da lei. Alguns tipos de despesa não se sujeitarão ao teto. Entre elas, o
FUNDEB, o Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica.
Para efeito de comparação, o fundo tem um orçamento previsto em 2016 de R$ 138 bilhões, ou quase 35% a mais do que todo o gasto do Ministério da Educação. Nada disso seria alterado.
Dentre os
R$ 389 bilhões, ou 6,6% do PIB brasileiro gastos em educação no ano de
2015 (percentual que supera o de países como Islândia, Suécia e nova
Zelândia), apenas 21,81% disso foi gasto pelo governo federal. Todos os
quase 80% restantes, portanto, não entrariam na conta do congelamento,
pois são de responsabilidade de estados e municípios, que não serão
afetados pelo teto.
Ainda
assim, o gasto federal em educação não necessariamente ficará congelado
como está hoje. Graças a uma nova regra, o valor de 2017 será calculado
com base no que for empenhado e não naquilo que for efetivamente gasto
em 2016. Com esta pequena mudança, o orçamento para 2017, será maior do
que em 2016, e depois disso será mantido igual, com reajuste pela
inflação. Na prática, no entanto, o que mais importa aqui é que, com a
PEC, os cortes na área feitos em 2015 e 2016 se tornam proibidos.
Ainda
assim, se o Congresso quiser, poderá ampliar o gasto com educação do
país, desde que aponte de onde dos 80% do orçamento que não dizem
respeito à saúde ou educação o valor sairá.
O mesmo ocorre com a saúde, área na qual o governo federal é responsável direto também por apenas uma fração daquilo
que é aplicado no país, uma vez que boa parte dos gastos na área são
privados (56% do total), ou de responsabilidade de estados e municípios
(cerca de 25,5% do gasto total).
Dos 19%
dos gastos em saúde que cabem ao governo federal, a PEC acarretará de
fato numa perda. Determinar quanto será perdido, porém, é quase
impossível.
Para o
Conselho Nacional de Secretários de Saúde, a nova regra implicaria em R$
31 bilhões a menos para a saúde em 2026, pouco menos de 5% do total que
o país investirá neste ano.
Infelizmente, não é possível estimar como ficam os cálculos com
base na mudança das regras para a área, que antecipam a medida que
eleva os gastos em saúde de 13,7% para 15% do PIB. Com essa regra, em
2017 a área de saúde passa a ganhar R$ 10 bilhões a mais já em 2017, bem
acima do prejuízo de R$ 2,5 bilhões estimados no estudo.
Em nenhum
dos estudos que apontam reduções, no entanto, a capacidade do governo de
gastar estes recursos é considerada. Em todos os casos, os estudos
consideram que o governo sempre terá dinheiro para gastar com
essas áreas, ainda que a dívida chegue a 100% do PIB, como deve ocorrer
em 2024 caso a trajetória atual se mantenha.
Como os
governos estaduais e os atrasos de salário deixam bastante claro, no
entanto, a possibilidade do dinheiro simplesmente acabar e o governo não
poder gastar nada no setor é real.
Ambos os
setores ainda serão inteiramente afetados pelas mudanças demográficas
pelas quais o Brasil passará. Na área de educação, por exemplo, o país
deixará de contar com 51 milhões para ter 42,5 milhões de jovens em
idade escolar, o que fará com que o valor per capita destinado aos
alunos aumente consideravelmente. Na parte da saúde, porém, este é um
grande problema. Nossa população irá envelhecer e os gastos permanecerão
os mesmos de hoje.
Saúde e
educação, no entanto, não serão congelados. Caberá ao Congresso definir o
momento e de que forma estes gastos poderão ser aumentamos acima do
mínimo. Para fazer isso, nossos políticos devem apontar de que outro
lugar do orçamento sairão os recursos.
5) Com a PEC 241, o governo irá pagar mais juros da dívida?
Se o
principal objetivo do novo regime fiscal é limitar o gasto público e
gerar um excedente que controle a dívida pública, não é muito difícil
imaginar que estes recursos excedentes irão para o pagamento de juros da
dívida não é?
Em princípio, a resposta é sim, mas isso não significa que o governo irá pagar mais juros, mas menos. Explico.
Essencialmente,
existem duas maneiras do governo pagar os juros da dívida e conseguir
diminuí-la. Na primeira, que é o que fazemos hoje, emitimos uma dívida
nova e pagamos a antiga, gerando com isso uma bola de neve – afinal,
nunca diminuímos a quantidade de dívida efetiva, o que faz com que os
juros cobrados pelos emprestadores seja cada vez maior. No segundo
cenário, criamos um esforço para reduzir a dívida, chamado de superávit
primário.
Neste
quesito, ninguém fez mais do que Lula e Palocci. Nenhum governo na
história economizou tanto para pagar juros da dívida. E o resultado
obtido foi justamente uma queda na dívida, e consequentemente nos juros.
Com a
expectativa de que a dívida entre em controle, os juros pagos ao final
de dez anos serão menores, uma vez que a dívida será menor. Sem a PEC, a
expectativa é de que o Brasil pague R$ 1,7 trilhões em juros da dívida
em 2026. Caso a PEC seja aprovada, pagaríamos R$ 1,3 trilhão em juros.
Ou seja, controlando os gastos ao longo da próxima década, estaremos pagando R$ 400 bilhões a menos em juros.
Como a PEC será revista em dez anos, é possível que o Congresso redefina para
onde irão os valores excedentes gerados e optemos por utilizar estes
valores em saúde e educação, por exemplo, ou continuar reduzindo a carga
tributária.
E se você quer saber maiores informações sobre a dívida pública brasileira, não deixe de ler esse artigo.
6) E se a PEC tivesse sido aplicada em 2003 ou 2011, como seria?
Simulações
com base em anos passados têm se tornado bastante comuns nos últimos
dias. Para algumas delas, caso a PEC tivesse sido aplicada em 2003 ou
2011, teríamos colocado algumas centenas de bilhões de reais a menos em
educação e saúde, ou estaríamos com um orçamento razoavelmente menor do
que hoje.
Propor um
exercício assim pode ser uma forma interessante de analisar a situação,
mas é preciso cautela. Primeiro, é necessário lembrar que nem saúde nem
educação são majoritariamente obrigações do governo federal. E em
seguida, é importante ressaltar que o objetivo da lei não pode ser
medido no passado – ou seja, não é possível saber como se comportaria a
taxa de juros, a dívida pública, os investimentos, a confiança do
investidor e do consumidor, e assim por diante.
Esta PEC é uma forma gradual de se fazer um ajuste fiscal. Aplicá-la em um momento onde a receita crescia e não havia necessidade de congelar gastos para fazer ajuste torna nulo seu objetivo.
Esta PEC é uma forma gradual de se fazer um ajuste fiscal. Aplicá-la em um momento onde a receita crescia e não havia necessidade de congelar gastos para fazer ajuste torna nulo seu objetivo.
Ainda
assim, a PEC poderia servir para mostrar que enquanto sociedade
poderíamos ter optado por escolhas mais inteligentes de como gastar
nosso dinheiro nos últimos anos. Poderíamos ter alocado mais recursos em
saneamento, que geram economia em saúde, em vez de concedermos aumentos
ao fundo partidário, por exemplo, que teve alta superior a 200%.
Como medir os efeitos de uma carga tributária menor na sociedade? Nenhum destes estudos se preocupa com esta questão.
Atualmente,
o setor privado é responsável por poupar cerca de 18,2% do PIB,
enquanto o setor público poupa -2%. Reduzir a carga teria aumentado a
poupança privada? Tudo indica que sim. E quais os efeitos práticos de
uma alta na poupança? A resposta é tão simples quanto parece: maior
geração de emprego e renda.
Tais
efeitos são sempre desconsiderados nestes estudos, mas são cruciais para
apontarmos quanto deixou de ir para cada área, uma vez que os novos
investimentos possibilitados pela arrecadação menor em nível federal
gerariam maior arrecadação em nível de estados e municípios, o que
elevaria os gastos obrigatórios destes entes federados em saúde e
educação.
Caso
estivesse em vigor desde 2011, a lei poderia ainda ter um resultado
inusitado: impedir que os funcionários públicos tivessem perdas
salariais no governo Dilma.
E o motivo
disso é bastante claro. Desde este ano, a média de aumentos salariais
concedidos pelo governo ficou em 5,5%. Em nenhum ano, porém, a inflação
ficou abaixo de 6%. O que é o mesmo que dizer que a cada ano do governo
Dilma o funcionalismo ficou um pouco mais pobre.
7) Por que propor uma mesma regra por um prazo de 20 anos não faz sentido?
Imaginar o
Brasil em um horizonte de duas décadas não é uma tarefa fácil. Nossa
pirâmide demográfica terá mudado completamente. Seremos um país com mais
idosos e menos jovens. Teremos mais gastos com a previdência e menos
gastos com escolas. Teremos enfim, outras prioridades.
Ainda
assim, a PEC como está posta hoje nos trata da mesma maneira. Para a
lei, somos irresponsáveis que precisam de um controle presente – e
precisaremos desse controle dentro de 20 anos. Não é absurdo supor que
demandaremos controles e devemos prezar por boas práticas. O tipo de
controle é o que deve ser revisto.
Como
mostra o economista Raul Veloso, mantida a tendência de economia de
recursos por 20 anos, em 2036 estaremos poupando quase 6,5% do PIB, ou
duas vezes o resultado mais positivo em toda a história das contas
públicas brasileiras.
Se, para
mantermos a dívida estável com um crescimento de 2,5%, é necessário
pouparmos 2% do PIB, por que então devemos permitir uma economia de
6,5%?
Em pontos como este, a lei se mostra falha, uma vez que busca prever um horizonte quase impossível de ser previsto e antecipado.
Definir a forma como o controle se dará no longo prazo é uma discussão que caberá ao Congresso após passados os dez primeiros anos,
quando a PEC puder ser revista. A PEC, no entanto, não irá figurar
solta no ar: irá se correlacionar com questões não passíveis de
previsão, como a macroeconomia mundial. É possível que o pais opte por
utilizar este excedente gerado pela lei para escapar de uma turbulência,
assim como pode-se optar por manter o congelamento por mais tempo, uma
vez que a redução da carga tributária tenha efeitos positivos sobre
juros e poupança e colabore para o crescimento da economia. Em todos os
casos, a PEC abre a possibilidade de o país discutir cenários mais
confortáveis, algo que hoje, em meio à crise, não podemos nos dar ao
luxo.
8) Quais países do mundo aplicam medida semelhante?
O rigor da
lei, à primeira vista, assusta. Afinal, estamos falando de uma lei do
mesmo nível da Lei de Responsabilidade Fiscal ou do Plano Real – algo
que irá impactar e definir os rumos do país por mais de duas décadas.
Um olhar ao redor do mundo, porém, ajuda a entender o que pode ocorrer com o Brasil nos próximos anos.
No caso mais emblemático, o da Suécia,
não é difícil perceber que, em relação ao PIB, a carga tributária deve
cair. Depois de aprovada sua lei de teto de gastos, a Suécia tornou-se o
país do mundo com carga tributária em maior queda livre.
Se considerarmos nossos gastos não pagos pelos impostos (nosso déficit,
portanto), nossa carga tributária hoje deveria ser maior do que a sueca
para comportar o governo.
Cobramos
hoje pouco menos de 33% de impostos e temos um déficit nominal de 10,2%
do PIB. Na Suécia, os gastos públicos estão em 42,8% contra 50,3% de
quando essa lei foi aprovada. Nada disso, porém, comprometeu os gastos
sociais do país.
Este, no
entanto, é apenas um exemplo do que pode ocorrer. Em países como os
Estados Unidos é comum que governos estaduais tenham também leis que
limitam a arrecadação. Ou seja: toda vez que a arrecadação crescer além
do limite previsto, o governo passa a devolver impostos à população.
Recentemente, o estado de Washington foi obrigado a realizar essa
operação, uma vez que os impostos obtidos com a venda de maconha
legalizada fizeram os impostos crescerem acima do esperado.
Em outros casos famosos, a Polônia aplicou a lei em 2011, o Peru em 2000 e a França em 1998.
_________
Definir se
uma lei fiscal é uma boa ideia ou não é algo que dependerá sempre dos
valores e prioridades de cada um. O que é importante destacar, porém, é
que, independente de qual prioridade você queira definir para o governo,
ela só será possível com uma condição: caso existam os recursos
necessários para executar tal ação.
Sem
dinheiro em caixa, os direitos garantidos pela Constituição não podem
ser atendidos pelo governo e boa parte daquilo que você considera
obrigação do Estado simplesmente deixa de ser realizado.
Há que se
destacar, entretanto, que na ocasião da aprovação da Lei de
Responsabilidade Fiscal e no lançamento do Plano Real não faltaram
pessoas para se opor e disseminar a ideia de que ambas as leis levariam o
país à falência.
Na prática, a PEC é uma tentativa gradual de se evitar problemas por uma década.









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